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Carbono. A nova medida de todas as coisas

Carbono. A nova medida de todas as coisas

Por Silvia Ribeiro

Os problemas ambientais são graves, com impactos sociais fortes e desiguais, e as mudanças climáticas são um dos principais. Mas eles não são causados ​​por toda a "humanidade". Mais que a era do Antropoceno, como alguns chamam, vivemos na era da plutocracia, onde tudo se define para que os poucos ricos e poderosos do mundo possam manter e aumentar seus lucros, à custa de tudo e de todos. outro. Essa absurda injustiça social, econômica, ambiental e política requer muitas armas para se manter e uma delas é a guerra conceitual. Inventar conceitos que ocultem as causas e características da realidade, que desviem a atenção da necessidade de mudanças reais e profundas e, melhor ainda, que sirvam para fazer novos negócios após crises.

Nesse contexto, o ensaio The Carbon Metric: CO2 como uma medida de todas as coisas? , de Camila Moreno, Daniel Speich e Lili Fuhr, publicado recentemente pela Fundação Heinrich Böll, é uma importante contribuição (http://mx.boell.org/es/metrica-del-carbono).

Mostra como em face da convergência de graves crises ambientais locais, regionais e globais, juntamente com as crises econômicas e financeiras, um forte destaque é dado às mudanças climáticas - o que Nicholas Stern chamou de "a maior falha de mercado que o mundo já testemunhou", Já as unidades de CO2 (dióxido de carbono) são posicionadas como uma medida para definir a gravidade do problema e suas possíveis soluções. Assim, outras questões permanecem na escuridão do contraste daquele raio de luz e tudo se resume à contagem das emissões de CO2 na atmosfera. Os autores não deixam dúvidas de que a mudança climática é real e séria, mas questionam “É mais importante e mais urgente do que a perda da biodiversidade, a degradação das terras cultiváveis, o esgotamento da água doce? É possível considerar cada um desses fenômenos como algo independente e separado dos demais?

"A maneira como descrevemos e enquadramos um problema determina em grande parte o tipo de soluções e respostas que podemos considerar", argumentam. Precisamente pela gravidade da crise ambiental, temos que evitar este “epistemicídio ecológico” em curso que reduz a ótica, elimina o conhecimento e destrói alternativas.

É sabido quais são as causas das alterações climáticas e os principais setores industriais que as causam: cerca de 80 por cento deve-se à exploração e geração de energia, ao sistema agroindustrial alimentar e ao crescimento urbano (construção, transportes), com base no uso e queima de óleo, gás e carvão. Tudo isso emite CO2 e outros gases de efeito estufa (GEE), metano, óxido nitroso e outros.

Sabe-se também que o que é necessário são reduções reais, na sua origem e na demanda, de todos esses gases e mudar as causas que os originam. E sabe-se que existem alternativas reais, diversas, descentralizadas e viáveis; Talvez o exemplo mais forte seja o de que 70% da humanidade se alimenta da agricultura camponesa e agroecológica, dos pescadores artesanais e das hortas urbanas, que não emitem gases de efeito estufa.

Mas as propostas dominantes -de instituições e governos- não são essas, mas outras baseadas principalmente em mercados de carbono e altas tecnologias que permitiriam continuar emitindo GEE como sempre, sendo “compensados” pela absorção do carbono emitido e estocando-o em fundos geológicos , ou seja, formas de geoengenharia.

A proposta de “compensação” vem sendo desenvolvida há anos, associada a esquemas de pagamento por serviços ambientais, biodiversidade, etc., componentes essenciais da chamada “economia verde”. Trata-se de justificar a destruição em um lugar, enquanto em outro deve ser “compensado” com algum pagamento, como se fosse a mesma coisa deixar uma cidade inteira sem floresta ou água em um país ou região, porque há um comunidade que se preocupa em outro lugar. Esses pagamentos geram "títulos", instrumentos financeiros especulativos que são negociados em mercados secundários.

Agora, para que tudo possa ser medido em unidades de CO2, todos os gases se traduzem na abstração do "equivalente CO2", sejam eles gases emitidos por uma transnacional mineira que devasta ecossistemas e cidades, pela queima de uma floresta. Ou o esterco. de alguns animais de um pastor. O conceito de “emissões líquidas zero”, não reduções reais, mas compensadas, completa esta operação (http://www.alainet.org/es/articulo/170440). Dessa forma, a “economia do carbono” poderia abarcar todos os itens anteriores, para se tornar a nova “moeda” de troca, que justifica a poluição e produz lucros para quem a causa.

Não só se perdem de vista as causas das alterações climáticas, mas também desta forma, simplifica-se grosseiramente a consideração de outros problemas ambientais graves e as interacções entre eles e os impactos sociais, o sistema que os provoca e as soluções de verdades. .internet

- Silvia Ribeiro é pesquisadora do Grupo ETC

Alainet


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